Blog

História das comitivas de peões de boiadeiros

Country Life
18.09.2015

Atualmente, caminhões transportam o gado ao seu destino final, mas ainda existem as comitivas, formadas por homens selecionados que conduzem o gado por estradas inóspitas de fazenda à outra ou da invernada para o matadouro.

A vida desses homens, os chamados “peões de boiadeiro” nas estradas rurais, conhecidas como “estradões”, segue uma rígida rotina de trabalho sujeita a todo tipo de surpresa e improviso.

Os peões de fazendas transportam várias boiadas até os pastos úmidos do Pantanal. A comitiva é formada pelo ponteiro, peão experiente e conhecedor das estradas, que vai à frente tocando o berrante, nos momentos apropriados, para atrair, estimular a marcha ou acalmar o gado e dar sinais para os demais peões; pelos rebatedores, peões que cercam o gado, impedindo que se espalhem e pelos culatreiros que vão à retaguarda da boiada levando de volta as rezes desgarradas.

ponteiro foto usti

Foto: usti

Os peões da “culatra manca” ficam para trás tocando os bois que têm problemas para acompanhar a marcha da boiada, por cansaço, ferimento ou doença. O cozinheiro sai mais cedo que os demais integrantes da comitiva, conduzindo os burros cargueiros com suas bruacas, nas quais leva os mantimentos e tralhas de cozinha, até encontrar um rio em cuja margem prepara a refeição, ou seja, “queimar o alho”.

Nas paradas, os peões matam a sede, com tereré, e a fome com arroz de carreteiro, feijão gordo, paçoca de carne feita no pilão e carne assada no “folhão” (chapa).

Queima do Alho

No dia seguinte, o berranteiro avisa que é hora de comer poeira na estrada. Os animais terão que atravessar vários obstáculos. Nas paradas, o descanso acontece no pasto, de preferência perto de água. Nos dias seguintes, a aventura continua até chegar ao destino.

Mas estas comitivas são cada vez mais raras e foi completamente extinta na década de 80 no Estado de São Paulo, ressaltando que a última boiada conduzida para abate na cidade de Barretos foi no ano de 1986, pelo comissário Wilson Pimentel.

história das comitivas

Foto: José Medeiros

No Mato Grosso, em Goiás e no Pantanal ainda existem comitivas ativas, pois há locais onde o caminhão não pode chegar, seja pelo excesso de água ou pela escassez de estradas. Foram as comitivas que deram início a maior e mais importante festa de peão de boiadeiro do país, a Festa do Peão de Barretos. Barretos se destacou porque a cidade era passagem obrigatória dos “corredores boiadeiros”, como eram conhecidas as vias de transporte de gado entre um estado e outro, e por sediar um frigorífico, por isso reunia grande número de peões, que nos encontros mostravam suas habilidades na lida com o gado. A movimentação dos viajantes contribuiu para a formação de muitas outras cidades e vilarejos, cortados pela estrada.

Atualmente, há outro tipo de comitivas, a de grupos de pessoas apaixonadas pelo mundo country que se reúnem para fazer cavalgadas e celebrar costumes típicos do sertanejo.

Curiosidades:

  • Algumas modas de viola têm como tema o peão de boiadeiro, como “Boi Soberano”, “Ponteiro de Boiada”, “O Menino da Porteira”, “Boi Fumaça”, “Os Três Boiadeiros”, “A Volta do Boiadeiro”, “Saudosa Vida de Peão”, “Berrante de Ouro”, “Mágoa de Boiadeiro”, “Velho Peão”, “Travessia do Araguaia”, “Boiadeiro Errante”, além de outras tantas outras.
  • Em 1983, a Comitiva Esperança formada pelos compositores Almir Sáter, Paulo Simões, pelo pesquisador Zuza Homem de Mello e pelo fotógrafo Raimundo Alves Filho percorreu mais de 1000 km pelos rios do Mato Grosso do Sul, realizando registros fotográficos e pesquisando costumes e a música regional, em uma viagem que durou três meses. A viagem virou um documentário produzido pela Tatu Filmes.

Vídeo:

Foto de destaque: Marcos Negrini/Setec-MT

compartilhe o post

Comente Pelo Facebook